segunda-feira, 16 de junho de 2008

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui, ai meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
E terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado-,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
N0 tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos, 15 de Outubro de 1829

5 comentários:

Rui Caetano disse...

Um poeta enorme, único.

Dulce disse...

Apesar do poema de Pessoa ser lindíssimo, atrevo-me a lembrar-te algo que aqui foi publicado há poucos dias e quie devia fazer parte da tua leitura em todas as manhãs:

" Se achar que é um derrotado, será mesmo. Se achar que nunca se atreve, nunca se atreverá. Se gostaria de ganhar mas pensa que não vai conseguir, provavelmente não conseguirá. As batalhas a travar na vida nem sempre vão para o homem mais forte ou mais veloz mas, mais tarde ou mais cedo, a vitória vai para aquele que acredita que vai vencer".

Beijo grande e um dia bom.

mena m. disse...

Um belíssimo poema Zé!

Pelo que deduzo que fazes anos hoje!
MUITOS PARABÉNS!!!!

É por vezes difícil não nos tornarmos sentimentais, quando nesta data olhamos para trás e a saudade nos invade!
Os que já partiram guardamos no coração e festejamos com os que nos rodeiam e nos amam.

Desejo-te um dia cheio de alegria, paz e amor!

Um abraço

pedro macieira disse...

Também por dedução, aqui vão os meus sinceros parabéns pelo dia de hoje, e também pela actividade na blogosfera nos últimos tempos, sinal que as tempestades se afastam.
Um abraço

M. disse...

Parabéns, Zé!