sexta-feira, 4 de julho de 2008

TESTAMENTO


Quando morrer nenhuma herança deixarei,
por junto, um nome sobre um livro só terei.
Na noite revoltosa que partindo
de meus ancestrais a ti chegou,
através de abismos e profundos fossos
que de rojo treparam meus avós,
e que, jovem ainda, deverás subir,
o meu livro, filho, é um degrau.

Pousa-o com fé à tua cabeceira.
Testemunho é da voz primeira
dos servos de rudes vestes, pleno
de seus ossos em mim vertidos.

Para que hoje pela primeira vez se mude
a enxada em pena, em tinteiro o sulco,
entre os bois acumularam nossos maiores
do trabalho de séculos os suores.
Dos ásperos apelos aos rebanhos
recolhi harmonia para meus versos
e canções de embalar do futuro.
Amassando o tempo longo e duro
dei-lhe a forma de ídolos e de sonhos.
Fiz jóias e coroas dos farrapos.
O destilado veneno converti em mel
deixando intacta a sua doce força.
Às vezes tomei o fio do insulto
e com ele teci a lisonja ou a injúria.
A cinza dos mortos recolhi da lareira
e no Deus de pedra a transformei.
Nessa alta fronteira de dois mundos
foi meu dever vigiar das alturas.

A nossa dor surda e amarga
num único violino a acumulei
para ao seu ritmo o senhor espernear
como um carneiro que fosse a degolar.
Das chagas, do musgo e do lodo
beleza fiz renascer e valores novos.
O látego de ontem tornou-se na palavra
que castiga e redime devagar
os filhos de hoje pelo crime de todos.
É a justiça reclamada pelo obscuro ramo
que da selva sai e a uma estrela ruma
e anuncia, como um cacho de verrugas,
o fruto da eterna dor humana.

Languidamente estendida no sofá,
a princesa sofre no meu livro.
Palavras de fogo e de ferraria
neste livro se casam e se fundem
como ferro ardente no aperto da tenaz.
O servo o escreveu, o senhor o lê,
sem saber que nele se concentra
a cólera dos meus antepassados.

ARGHEZI,Tudor- trad. Paulo Rato

3 comentários:

viajante disse...

Eremita o divulgou, nós o lemos.
Um abraço.

mena m. disse...

Como um bumerangue, volta à mão de quem o atirou...

Que força emana deste texto!

Eremit@ disse...

desculpem, mas alguém me perguntou de que livro é este poema. Pois não sei. Gguardei-o há anos e com o tempo o registo do livro ficou ilegível.
Quem me perguntou me desculpe mas sem querer eliminei o e-mail e não recordo quem foi...Pode ser que por cá passe...
Abraço