
Toda a minha vida está bem organizada.
Como engrenagem bem oleada e o dia-a-dia flui.
Nada é deixado ao acaso.
Sou dono dos meus dias e de minha vida em cada momento. Nunca qualquer aspecto desta me surpreende, me deixa expectante ou frustrado. Até de minhas emoções estou no comando.
Sou senhor absoluto do meu tempo e da vida.
Chamo-me Celestino Fradique Brocks, tenho quarenta e dois anos e sou economista de profissão.
Solteiro militante. As mulheres entram e saem de minha vida quando necessário, quando determino. Sem lhes dar tempo a que se tornem fastidiosas e dominadoras como é de natureza nos seres frágeis e inseguros.
Tenho familiares, mas vivemos de forma muito autónoma.
Como não admito ingerências as nossas relações atém-se ao socialmente correcto entre pessoas com vínculos semelhantes aos nossos.
Sempre soube interpretar bem os usos e costumes, o socialmente correcto, e viver dentro destas normas _ até porque o seu uso e manutenção acaba por proteger o meu estilo e modo de vida _ dando-me a quietude que pretendo.
No emprego dou-me com todos os colegas, mas evito o contacto estrito e pessoal fora deste espaço.
Participo em todos os jantares e festividades da empresa.
Sempre entro na recolha de fundos para aquisição de prendinhas: quando nasce uma criança, alguém se reforma ou muda de emprego e até nas situações de morte sou correcto, mesmo que nada de particular me ligasse aos finados.
A minha coroa de flores, acompanhada de um bom cartão, nunca falta.
Nos convívios tenho sempre um stock novo de uma dúzia de anedotas e assim surjo como um dos grandes animadores.
Preparo-me, é óbvio, para tais eventos, chegando ao extremo, para alguns, de memorizar umas quantas citações de gente ilustre adaptadas a cada ocasião.
Granjeei, desta forma, fama de sociável e bom companheiro.
Bem disposto e inteligente.
Os meus dias, a minha vida, obedece a rotinas pré-definidas, em função dos objectivos que procuro alcançar. Guio-me sempre pelo princípio organizativo de “trabalhar por objectivos”.
PAULINO Conceição.(2007)"Salvador o Homem e Textos InConSequentes". S. Mamede de Infesta: edium editores:87-88
3 comentários:
Interessante.
Frio e calculista, este Fradique.
Uma boa descrição do viver de muita gente.
Uma boa semana.
Duro, muito duro.
E também real.
é difícil, por vezes, descobrir quando estamos apenas a colocar uma segunda pele ou estamos a manipular tudo que nos diz respeito.
Como um autómato aprendi a sorrir nas alturas pré-determinadas, a fechar o sorriso qd era assim que ditavam as regras. Sempre um obrigado na altura certa, um se faz favor.
E depois, na lenta aprendizagem da vida aprendi que os conceitos do politicamente correcto devem também partir do nosso coração.
Um texto excelente e digo isto sem reservas. Gostava de o ter escrito eu!
Beijo
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